Little, o pretinho de cabelo vermelho – red nigger, como os amigos o chamavam –, queria ser médico. Sempre quis. Era o melhor aluno da escola só de brancos que frequentava. Desempenho primoroso, de fazer inveja aos colegas. Ele até teria conseguido, mas foi dissuadido da ideia por um professor que sugeriu algo mais adequado a sua raça: “Você é negro, Little. Tem mãos grandes e fortes. Deveria seguir carreira de carpinteiro, pedreiro, algo mais adequado às pessoas de sua raça”.
Malcolm Little não gostou muito da sugestão, mas sua cabeça de dez anos não soube caçar alternativas. Virou ladrão. Na cadeia, converteu-se ao islamismo, trocou o sobrenome Little pela incógnita aritmética X – já que, ao descer do navio, os pretos eram rebatizados com o nome dos seus donos, seus verdadeiros nomes se perdiam com suas almas na travessia do Atlântico –, foi libertado e virou uma das maiores lideranças negras de toda a história.
Hoje, o argumento do professor primário de Malcolm X parece racista e anacrônico. Ninguém em sã consciência abraçaria uma baboseira dessas em pleno século XXI. Será? “Na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem, muitos com mãos de ouro, fazendo coisas lindas, tem negros assistentes, vendedoras, por que têm de estar na passarela?”. Essa pérola, digna de um craniomestrista – cientistas que julgavam ser possível conhecer a aptidão de uma pessoa com base na medição de seu cérebro e cuja conclusão geral apontava para a habilidade manual do negro – do século XIX, foi dita pela estilista Glória Coelho à Folha de S. Paulo do último dia 12 de abril.
Modelos negros em protesto contra discriminação, em SPFW do ano passado (Foto: Ana Branco/Agência O Globo)
Essa foi a resposta da auto-intitulada artista a proposta da promotora Déborah Kelly Affonso, que pede cotas para negros nos desfiles da Fashion Week. Realmente, a proposta deve ser absurda, já que os 3% de negros que desfilam na Fashion Week são mais do que suficientes para representar essa gente que corresponde a 49,7% da população brasileira, segundo o IBGE. Vale lembrar que esse dado exclui marrrons-bonbons, chocolates sensuais, mulatas globelezas, pretinhos bombas e outras designações raciais pertinentes.
Se juntar tudo isso, devemos ser uns dois terços do Brasil. Será que dois terços do Brasil são muito feios para subir a uma passarela? Ou será que as pessoas que hoje julgam – e ditam – a beleza só têm como referenciais loiros de olhos azuis e pele alva? Como tendo a creditar a segunda hipótese, abandono a ironia para dizer que, sem cotas, a beleza negra não será reconhecida. Sem cotas, teremos que continuar a ouvir pseudo-ciências envelhecidas em 200 anos para justificar puro e simples racismo. E o que é pior é que, sem cotas, essa Glória Coelho nem sabe que é racista.
http://www.afroencias.com.br/2009/04/gloria-coelho-e-aptidao-do-negro-ao.html

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