quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Se não queremos capacitar os nossos, seria muita mistura. tragam estrangeiros

Folha de S. Paulo, 6/11/2011
PROJETOS DE OBRAS PÚBLICAS ATRAEM ARQUITETOS 'GRINGOS'
Consórcios internacionais disputam contratos milionários em São Paulo
Escritórios estrangeiros se unem a brasileiros em busca também de obras privadas; crise na Europa e EUA contribui
EVANDRO SPINELLI
VANESSA CORREA
Copa, Olimpíadas, país emergente, economia estável. Tudo isso está atraindo arquitetos estrangeiros para o Brasil, em busca de oportunidades de negócios, coisa rara hoje nos Estados Unidos e na Europa, que enfrentam dura crise econômica.
Um exemplo da "invasão estrangeira" é a licitação de R$ 30,6 milhões da Prefeitura de São Paulo para a elaboração dos projetos de três novas operações urbanas.
Para disputar os contratos, sete consórcios se formaram. Em todos, há arquitetos estrangeiros. Mas, na maioria deles, há parceria com profissionais brasileiros.
"O brasileiro conhece bem a lei e a cultura local. O estrangeiro contribui por ter feito projetos fora e por trazer novas perspectivas", diz o secretário de Desenvolvimento Urbano, Miguel Bucalem.
"Havendo crise lá fora, os escritórios vão procurar onde tem trabalho. Ninguém vai ficar de braço cruzado. Em qualquer mercado é assim", afirma Ronaldo Rezende, presidente da AsBEA (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura).
Adriana Levisky, da Levisky Associados, se uniu a dois escritórios de Barcelona (ERV Architects e Jornet-Llop-Pastor) e um nacional (De Fournier, de um suíço radicado no Rio de Janeiro) na disputa pelo projeto da operação urbana Lapa-Brás.
Ela diz que a grande contribuição dos "gringos" é a experiência em desenho urbano. "No Brasil, temos experiência em planejamento urbano, mas não em desenho urbano. As nossas operações urbanas têm parâmetros legais, mas não se preocuparam com o desenho urbano."
Entre os estrangeiros, o que está mais estruturado no Brasil é o norte-americano Aecom, que faz o projeto Nova Luz, de revitalização da cracolândia. Eles também fizeram o plano diretor de Londres para a Olimpíada-2012.
Na Nova Luz, o Aecom tem sociedade com empresas brasileiras de projeto (Concremat), urbanização (Cia. City) e estudos econômicos (FGV), mas não há parceria com arquitetos nacionais.
O Aecom apresentou propostas para duas operações urbanas: Lapa-Brás -que fará o plano para a demolição do elevado Costa e Silva, o Minhocão- e Mooca-Vila Carioca -para revitalização da área industrial da Mooca.
Na empreitada, o Aecom se associou ao escritório de engenharia CNEC, criado por brasileiros, mas comprado no ano passado pelo grupo australiano WorleyParsons.
OUTROS PROJETOS
Há outros projetos de escritórios internacionais em São Paulo. O norte-americano Daniel Liebskind projetou um edifício residencial de alto luxo no Itaim Bibi para a construtora JHSF.
Já o hotel "seis estrelas" que será feito no antigo hospital Umberto Primo, na Bela Vista, está a cargo dos franceses Jean Nouvel, arquiteto, e do designer Phillip Starck.
O governo do Estado entregou -sem licitação e sem dar a mesma oportunidade aos brasileiros- ao suíço Herzog & De Meuron o projeto do futuro teatro da dança, nos Campos Elíseos.
O governo do Estado disse, à época da contratação, que a ideia de trazer um escritório estrangeiro era de "expor a arquitetura brasileira à arquitetura internacional".
Também afirmava que, após ouvir consultores internacionais, chegou à conclusão de que o escritório Herzog & De Meuron era "o mais flexível" para elaborar um projeto de acordo com os interesses do governo.
Profissionais estrangeiros deixaram suas marcas no país
Masp e Casa de Vidro são exemplos em SP
A contribuição de profissionais estrangeiros à arquitetura brasileira é histórica e deixou marcas em cidades como Rio e São Paulo.
O Palácio Capanema, na capital fluminense, considerado um marco do modernismo, foi projetado na década de 1930 com a consultoria do franco-suíço Le Corbusier - um dos nomes mais importantes da arquitetura moderna no século 20.
Em São Paulo, o Campos Elíseos, primeiro bairro planejado da capital paulista, nos anos 1870, foi projetado pelos alemães Frederico Glette e Victor Nothmann.
Hoje, os dois alemães são nomes de ruas no bairro central -as alamedas Glete e Nothmann. O sueco Carlos Elckman também tem projetos de casas no bairro.
O imponente edifício Matarazzo, atual sede da Prefeitura de São Paulo, é um projeto do italiano Marcello Piacentini. O russo Gregori Warchavchik é autor de alguns dos principais projetos da cidade, como a Casa Modernista na Vila Mariana, na zona sul, bairro onde morou.
Quem também se destacou no Brasil foi a italiana Lina Bo Bardi com sua arquitetura modernista.
São dela, por exemplo, os projetos do Masp (Museu de Arte de São Paulo) na avenida Paulista, a "casa de vidro" no Morumbi, zona oeste -onde o casal Lina Bo e Pietro Maria Bardi morou- e o Sesc Pompeia, também na zona oeste da capital.
A partir da década de 1960, após a construção de Brasília projetada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer -ambos participaram da equipe que projetou o palácio Capanema, no Rio-, os brasileiros começaram a se destacar internacionalmente.

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